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´Nódoa Negra’, desenhos de Mimi Tavares

Em dezembro de 2022, vi a exposição da Mimi Tavares “Exílio em casa” na Galeria Monumental, onde fui surpreendida com interiores de casas ambíguos, espaços representados em desenhos e pinturas que me interpelaram ao remeterem para imagens do estranho mundo da memória e dos sonhos, como se visitasse uma casa interior com o olhar e a imaginação. Ontem fui à sua actual exposição ‘Nódoa negra’, e de novo fui interpelada com desenhos de espaços interiores desabitados, que se encontravam na segunda sala da galeria, que também é o seu espaço visitavél mais interior. Neste conjunto de desenhos denominados ‘Dentro’, as personagens são os objectos representados, objectos que habitam salas e quartos, e de um modo obscuro nos contam histórias de pessoas ausentes. Este núcleo foi completado com um conjunto de desenhos onde representou figuras humanas, personagens solitárias habitando paisagens inóspitas, em situações de tensão ou mesmo de perigo, criando uma dualidade entre natureza habitat e natureza humana. Nestes desenhos assistimos a um jogo criativo de escalas entre figura humana e paisagem, e encontram-se expostos no espaço da galeria que dá para o exterior, sendo o conjunto e bem intitulado ‘Fora’. E os desenhos da Mimi são muito forex, peculiares e únicos, são lindos, a finissage da exposição é amanhã, se não virão ainda, não percam!

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‘Geppetto’, pinturas de João Queiroz

18 de Janeiro de 2024: Ainda fui a tempo de ver ao vivo a exposição ‘Geppetto’ de João Queiroz na Galeria Miguel Nabinho : paisagens epidermicas, encáusticas em pequena escala, uma escala mais ‘humana’ a contrariar o legado do informalismo e expressionismo abstrato onde a pintura se expandiu monumentalmente, em museus de arte contemporânea que poderiam ser visitados a andar de bicicleta. As paisagens de João Queiroz exigem uma concentração bem diferente no olhar, por serem pequenas pinturas a exigir um tempo e um prazer em observar mais pausado e introspectivo, remetendo para o interior e o mistério que cada paisagem inventada apresenta, que o autor apelidou de ‘brinquedos visuais’. As pinturas provocaram ressonâncias nas minhas paisagens interiores, nas paisagens a habitar a memória, aproximando-se e afastando-se de possíveis referentes devido à ambiguidade expressiva, com um peculiar cromatismo onde se destacam contrastes luminicos, onde a figuração de árvores ou montanhas surgem em metamorfose com outros elementos, vivendo com alguma verosimilhança e imaginação em simultâneo. A forma como foram alinhadas e expostas dentro do espaço da galeria permitem uma visão sequencial, onde se relacionam numa narrativa visual pouco óbvia, permitindo ver e voltar a ver, escolher o tempo de observação de cada pintura num contexto panorâmico. Estamos sobretudo perante um jogo visual entre duas naturezas nestas pinturas: a natureza humana e a natureza natural, tendo em conta que o pintor apresenta paisagens onde a figura humana não é representada. A criação de uma pintura é a criação de um comos no caos, onde a natureza natural é o próprio caos ou habitat dos seres humanos. Não esquecer que enquanto humanos somos também um espelho do que nos rodeia, ou seja, somos natureza humana, e também natureza natural na qual estamos inseridos. João Queiroz construiu paisagens com a imaginação, paisagens interiores e exteriores, em diálogo com o mundo natural onde habita, em pinturas que são rastos da sua presença na natureza, materializando assim paisagens humanas e epidermicas, onde o rasto da sua presença no mundo se funde com a natureza que o rodeia.

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A Casa das Musas (2024) #2

Após diversas tentativas e erros, aqui fica o meu livro ‘A Casa das Musas’ (2024) filmado por Sofia Cavalheiro, que mais uma vez tornou possível partilhá-lo convosco. Sirvam-se e disfrutem!

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Apontamentos #3

Pensei em ter ser, não por causa da rima, o som só tem um impacto imediato. Sem fogo de artificio, estive a substituir o verbo ter pelo verbo ser. Por exemplo: eu tenho uma casa/eu sou uma casa; eu tenho um vestido, eu sou um vestido; eu tenho dois gatos/ eu sou dois gatos. Tu tens dinheiro/ tu és dinheiro; tu tens conhecimento/ tu és conhecimento; tu tens poder/tu és poder. Eles têm um grupo/ eles são um grupo; eles têm regras/ eles são regras; eles têm família/eles são família. Conclui que funciona igual para ele e no  plural nós, vós, e dá para trocar tudo, o ter ser pode ser ter, mas escolho o ter ser por causa do fogo de artificio.

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A Casa das Musas (2022-2023) #1

Como referi no prefácio do meu livroA Casa das Musas’ (2024), o livro resultou de uma interpretação visual de nove micro-ficções, escritas para comemorar o dia e noite dos Museus. Com a sua leitura participei numa sessão realizada a 15 de Maio de 2010, organizada por Pedro Sena-Lino na Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves em Lisboa. Na altura, postei as ficções no meu antigo blog, mas apenas comecei a fazer desenhos a partir delas em 2016. Entretanto, na altura não dei continuidade porque entrei na recta final do doutoramento.   Retomei este projecto no verão de 2022, com a série de desenhos a grafite tamanho A4. Em simultâneo, também realizei pequenas pinturas em papel baseadas nos desenhos.  De algum modo, ambos funcionaram como estudos para construir o livro, uma vez que ia encaixando os espaços inventados numa sequência visual narrativa. Durante a pandemia pintei sobretudo em tela a série ‘Panorâmicas (2020-2022), que terminou com um conjunto de ‘Vanitas’ (2022). Senti depois necessidade de trabalhar em papel e procurei algo mais solar e menos abismal. Vou continuar esta série porque sinto-me mais livre a trabalhar em papel do que em tela.