No ano passado saiu a Revista Largo das Belas-Artes 05 (Dez 2024, ISSN 2184-905605), dedicada às I Jornadas Francisco de Holanda, que decorreram a 30 de Outubro, 6 e 7 de Novembro de 2021 na Faculdade de Belas.Artes da Universidade de Lisboa. O número inclui o meu artigo ‘ Da criação à investigação: transdisciplinaridade, experimentalismo e feminismo’ que resultou da participação nas jornadas, onde refleti sobre o meu percurso artístico em relação à investigação. Fica aqui o artigo e o link para lerem revista on-line.
Categoria: Sobre Arte
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Apontamentos #5
- Autor do artigo Por MJLFernandes
- Data do artigo 28 de Maio, 2025
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O livro-objeto e o livro de artista com múltiplos não são antagónicos, como certos autores nos querem fazer acreditar. É possível fazer múltiplos de livros com carácter escultórico. O que não faltam são edições fac-similadas de livros artista, que inicialmente eram exemplares únicos. Quanto à escultura, na antiga Grécia já se cunhavam moedas. Como acham que existem tantos Pensadores de Rodin nos Museus? O livro objeto pode ser industrializado e reproduzido. O Kiefer faz livros-monumento com carácter único, entende-se que sejam assim. O facto de alguns autores apresentarem o antagonismo entre o livro de artista editado em pequena edição e o livro exemplar único, dos quais o livro-objeto representa o extremo, relaciona-se a meu ver, com a institucionalização do livro de artista no século XXI, com critérios de compra nas coleções. É mais barato comprar um múltiplo que um exemplar único. Não consigo imaginar o preço de um livro-monumento de Anselm Kiefer. Prefiro olhar o panorama do livro de artista desde os livros ilustrados até ao livro-objeto com carácter escultórico, com todas as cores, odores e texturas que existem neste campo alargado e criativo, sem espartilhos, caixinhas inúteis e preconceitos. O livro de artista é vário.
- Etiquetas Apontamentos, Blog, Livro de artista, Sobre Arte
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Apontamentos #4
- Autor do artigo Por MJLFernandes
- Data do artigo 14 de Abril, 2025
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Ontem revi um documentário sobre Almada Negreiros na RTPM, onde em entrevista citava e bem Delacroix: ‘O novo existe e pode mesmo dizer-se que é precisamente tudo o que há de mais antigo”
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Nem a Favor, nem contra, bem pelo o contrário
- Autor do artigo Por MJLFernandes
- Data do artigo 2 de Março, 2025
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Exposição de João Albuquerque na Galeria Municipal de Montemor-o-novo.
Convite da Exposição de João Albuquerque 2025
Exposição de João Albuquerque na Galeria Municipal de Montemor-o-novo.
Sem título, Óleo sobre papel,46x38.
Sem título, Acrílico sobre tela, 30x30cm.
Catálogo Exposição de João Albuquerque 2025
O meu texto no catálogo Exposição de João Albuquerque 2025
Catálogo de Exposição de João Albuquerque 2025
Ontem inaugurou a exposição de pintura ‘Nem a favor, nem contra, bem pelo contrário’ de João Albuquerque, na Galeria Municipal de Montemor-o-novo. A exposição contou com a minha curadoria, ou seja, tive a honra de acompanhar o João nesta sua aventura pictórica. Se andarem nas Terras do Além (Tejo), não deixem de a visitar, estará patente até ao dia 22 de Março. Para vos abrir o apetite, fica aqui o texto que escrevi para o catálogo:
A partir do oximoro ‘Nem a favor nem contra, bem pelo contrário’ somos convidados a ver as pinturas de João Albuquerque na Galeria Municipal de Montemor-o-Novo. Quando vi fotografias das suas pinturas recentes nas redes sociais, de imediato remeti-as para o informalismo ou expressionismo abstrato. No entanto, ao observá-las ao vivo no seu atelier, a escala surpreendeu-me. O formato pequeno das suas pinturas contraria o legado destas correntes artísticas que se expandiram de forma monumental nos museus de arte moderna a partir de meados do século passado, tal como a pintura histórica já tinha invadido as paredes cegas do Louvre. A pequena escala e o formato médio das pinturas maiores de João Albuquerque são janelas abertas para outro espaço pictórico, com uma escala ‘mais humana’, intersubjetiva, que aproxima o olhar em vez de o esmagar, como acontece na pintura monumental. Estamos assim perante espaços poéticos condensados, próprios de uma peculiar expressão individual, que exigem um olhar atento num tempo pausado e introspetivo, com um corpo que se afasta do atual veloz virtual mundo audiovisual e digital.
Na pintura paradoxal de João Albuquerque habitam estruturas geométricas, ritmadas repetições de retas, linhas curvas, retângulos, triângulos, figuras híbridas ou fragmentadas, conjugadas com movimentos gestuais livres. Os gestos expressivos originam também planos epidérmicos, em composições dinâmicas onde se articulam formas com o informe, figuras reconhecíveis e rastros do seu ser temporal, que criam contrastes e encontros cromáticos imprevisíveis em superfícies texturadas ou planas. Na esteira de Magritte, mestre em paradoxos, que em ‘O Império da Luz’ (1952-53) representou a noite e o dia no mesmo quadro, João Albuquerque caminha em direção ao desconhecido na sua persistente experimentação pictórica, como se estivesse no escuro, pesquisando e conjugando elementos antagónicos, que iluminam um percurso do qual resultam estas composições breves, intensas e condensadas, que apelam a um olhar aberto a todos os sentidos. ‘Nem a favor nem contra, bem pelo contrário’ convida-nos a ver um espaço-tempo anterior às palavras, que torna o inominável possível, ou seja, a pintura aberta ao prazer da livre fruição.
Maria João Lopes Fernandes
Fevereiro de 2025
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Évora Experimental 2024
- Autor do artigo Por MJLFernandes
- Data do artigo 3 de Dezembro, 2024
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Livros de artista de Fernando Aguiar.
Pintura de Armando Macatrão.
Livros de artista de Emerenciano.
Livros de artista de Manuel Almeida e Sousa.
Livros de artista de Feliciano Mira.
Poemas visuais de António Nelos.
Instalação de António Dantas.
'Relicário' de César Figueiredo.
'Dicionário de Sinónimos' de José Oliveira.
Poema visual de Antero de Alda.
Manuel Portela a apresentar 'Nuvens Passageiras'
Uma vez que o meu texto na revista Alentejo Ilustrado se encontra bastante sintetizado, fica aqui o texto integral como o enviei para a revista:
Évora Experimental 2024: um encontro com a palavra multidisciplinar
Em boa hora surgiu a Évora Experimental, ideia e conceção do arraiolense Feliciano Mira, revitalizando assim o experimentalismo no nosso país. Sendo já a quinta edição, o encontro inaugurou a 25 de Outubro, com a exposição ‘Palavra Explícita, Oculta Palavra’, patente até ao dia 31 de dezembro, nas galerias superiores do Mercado Municipal de Évora. No dia seguinte, no mesmo local, houve várias apresentações de livros; um momento de evocação do poeta José-Alberto Marques, que contou com testemunhos dos autores presentes acompanhados por Maria Sarmento; e o Video Box no Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo, onde se projetaram vídeos. ‘Palavra Explícita, Oculta Palavra’ apresenta poemas visuais e livros de artista, de autores que seguem o movimento que ficou conhecido como Po.Ex (abreviatura de POesia EXperimental Portuguesa criada por E. M. de Melo e Castro para a exposição ‘PO.EX/80’, na Galeria Nacional de Arte Moderna em Lisboa).
Antes ainda de abordar as obras expostas, relembro que o termo ‘experimental’ surgiu na segunda metade do século XX, devido à infiltração das tecnologias nas produções artísticas e literárias, também com o aparecimento da música eletrónica, que era composta com sons novos realizados por máquinas. O experimental também foi usado como sinónimo de aleatório, resultando ainda da apropriação das noções científicas de investigação, colaboração, teorização e experimentação para o domínio artístico, nomeadamente, na arte processual interdisciplinar deste período.
Em Portugal, o ‘experimental’ apareceu com a publicação dos “Cadernos Antológicos da Poesia Experimental” (1964 e 1966), que surgiram na sequência das revistas de poesia dos anos 50, que reuniam poetas com afinidades estéticas, uma vez que incluíam um primeiro editorial programático. Estas revistas designavam-se de ‘folhas’, ‘fascículos’, ‘cadernos’ ou ‘antologias’, indicando assim não serem publicações periódicas, para escaparem à censura prévia obrigatória no Estado Novo. Em torno dos Cadernos Antológicos, iniciados pelos poetas madeirenses António Aragão (1921-2008) e Herberto Helder (1930-2015) reuniram-se, entre outros autores, Salette Tavares (1922-1994), Ana Hatherly (1929-201) E.M. de Melo e Castro (1932-2014) e José- Alberto Marques (1938-2024), que exibiram a sua experimentação verbo-visual em galerias de arte, realizando também happenings em colaboração com o músico Jorge Peixinho (1940-1995).
Esta primeira geração seguia de perto o experimentalismo europeu, assim como o movimento internacional da poesia concreta, e agiu coletivamente nos últimos anos da ditadura, individualizando depois os seus percursos. Na atual exposição, marca presença uma segunda geração de poetas visuais, maioritariamente, nascidos nos anos 50 do século passado, sendo alguns um pouco mais antigos ou mais jovens. São também autores cujas produções criativas apareceram depois do 25 de Abril, num período marcado pela divulgação do conceptualismo, realizada por Ernesto de Sousa (1921-1988), que estimulou a desmaterialização das práticas artísticas expandindo-as à instalação ou à performance.
Alguns dos poetas da atual exposição colaboraram com os clássicos da Po.Ex, sobretudo a partir de ‘Poemografias: Perspectivas da Poesia Visual Portuguesa’, exposição itinerante que passou por Lisboa, Torres Vedras, Coimbra e também por Évora, onde esteve na galeria Municipal de Arte, de 5 a 26 de Maio de 1985. ‘Poemografias’ foi organizada por Silvestre Pestana, que colaborou na Po.Ex ainda antes da revolução, e por Fernando Aguiar, que se tornou depois o responsável pela organização de exposições e festivais desta poética, sendo um importante divulgador nacional e internacional. Aguiar é um dos curadores de ‘Palavra Explícita, Oculta Palavra’, onde expõe três pinturas, unidas pela presença de uma régua articulada, que as mapeia com outros registos gráficos; apresenta ainda originais livros de artista, destacando-se um conjunto de cinco livros, cada um configurando uma letra da palavra livro. A sua poética explora não só o potencial da palavra plástica, mas também recorre a fonemas ou letras, expandindo-os em termos performativos, como foi possível ver no Video Box, onde projetaram registos das suas performances.
Igualmente, Armando Macatrão expõe pinturas conceptuais onde cria lúdicos jogos entre títulos, palavras pintadas e configurações em metamorfose com superfícies topográficas de um cromatismo vibrante. Emerenciano, o autor das conhecidas ‘escritopinturas’, expõe telas onde retratos de figuras desenhadas a duas cores, se conjugam com estruturas retangulares preenchidas com caligrafias simulando caixas de texto, em sintonia rítmica com embalagens de medicamentos coladas, num todo que remete para páginas de imprensa, mas no caso só se podem ver. Emerenciano também está representado com originais livros de artista, dos quais se destacam os construídos com a ‘arte do carimbo’.
Manuel Almeida e Sousa recorre à assemblage para construir poemas visuais impressos em papel, estando exposto uma série que vive da tensão surrealizante entre palavra e imagem. O autor mostra também dois singulares livros-objetos negros, um com a forma de caixa aberta, o outro embrulhado com uma corda em redor, remetendo para ‘O enigma de Isidore Ducasse’ (1920) de Man Ray. Sendo um homem do teatro, Almeida e Sousa no momento de evocação de José Alberto-Marques, falecido recentemente, contou-nos como o conheceu, ao participar com os seus colegas do Conservatório Nacional, no espetáculo ÂNIMA (1977), onde poemas visuais da Po.Ex foram encenados pelo brasileiro Seme Lutfi (1946-1999) e por Silvestre Pestana. No Vídeo Box deste ano, foi ainda possível ver um vídeo com a experimentação fonética de Almeida e Sousa, onde atuava acompanhado por um instrumento de sopro aborígene.
Também no Vídeo Box se projetaram registos de performances do curador Feliciano Mira, realizados em parceria com Brenda Segura. Mira marca presença na exposição com livros de artista compostos por livres registos caligráficos e pinturas em papel, onde as caligrafias constroem mapas, uma vez que a associação das suas formas e cores permitem seguir diversos percursos com o olhar. Apresenta ainda ‘Imposit’, um objecto tridimensional onde o grafitti dialoga com letras e moldes de palavras do poema ‘O Menino Ivo’ de Salette Tavares.
No Vídeo Box deste ano visionou-se também ‘Ego Ego 1’ (1986), uma surpreendente obra do período analógico dos madeirenses António Dantas e António Nelos (1949-2018): composto pela sobreposição de imagens em movimento com forte cromatismo hipnótico, ritmadas num persistente ostinato que remetia para o batimento cardíaco, o vídeo tem um efeito invasivo e até perturbador, devido a ser um audiovisual extremamente corporal ou multissensorial. Por seu turno, os poemas visuais de ambos, situam-se numa linha política que em muito deve à poesia visiva italiana, uma vez que se apropriam de material dos meios de comunicação para os desconstruírem criativamente e de forma critica. Nesse sentido, foram influenciados por António Aragão, que nas suas electrografias dos anos 80, manipulava materiais gráficos com a máquina fotocopiadora, para criar poemas satíricos que viviam de imprevisíveis relações entre palavra e imagem.
António Nelos marca presença com três poemas verbo-visuais dos quais se destaca ‘Li Ver Da De’ (1987), onde a translação de uma imagem remete para a clássica tragédia ‘Édipo Rei’ de Sófocles. António Dantas mostra uma instalação onde imagens fotográficas constroem narrativas visuais, estando impressas em tiras verticais de acetados, dispostas de forma a aparentar fragmentos de pelicula de filme, sobrepondo-se na transparência a um plano anterior onde surgem palavras impressas, que se revelam ou ocultam no movimento de aproximação ou distanciamento do olhar.
César Figueiredo apresenta algumas afinidades estéticas com os poetas madeirenses, uma vez que recorre à electrografia para compor poemas. Partindo também da apropriação de material gráfico diverso, Figueiredo aproxima-se de imagens e textos através da fragmentação e ampliação, em composições onde joga com a sobreposição dos elementos, resultando poemas palimpsestos gráfico-verbais, que vivem de tensões entre a legibilidade/ilegibilidade. César Figueiredo marca ainda presença com um original conjunto de livros de artista apelidados de ‘Relicários’, que remetem assim para o passado sagrado e histórico dos livros artesanais.
Em sintonia com os ‘Relicários’ de Figueiredo, os livros-objetos artísticos de José Oliveira referem-se à própria origem do objeto livro, nomeadamente, aos Códices que eram compostos por papiros ou pergaminhos dobrados e costurados, e albergaram os textos religiosos a partir do século I d.C. Nos seus Códices, Oliveira contrasta o ritmo da escrita manual com aspetos epidérmicos das páginas, numa intemporalidade própria do contemporâneo que é antigo em simultâneo. Expõe também ‘Diário de Sinónimos’, um livro-mundo composto por páginas circulares, onde lado a lado se encontram superfícies texturadas com a alquímica presença de ferrugem e rastros de escritas em registos gráficos depurados. Marca ainda presença com um conjunto de pinturas fragmentadas, onde conjuga superfícies matéricas com escrita manual ilegível, acompanhadas de títulos poéticos. O autor, que também é músico, na inauguração brindou-nos com a performance ‘Sou som’, onde construiu um retrato sonoro do espaço, ao repercuti-lo com um pequeno prato metálico chinês, fazendo ainda marcações a giz em alguns pontos, onde lançou bolas de ping-pong.
Em ‘Palavra Oculta, Explicita Palavra’ estão presente obras de Antero de Alda (1961-2018), nomeadamente, uma assemblage que data de 1987, e dois poemas de carácter político mais recentes. Sendo um pouco mais jovem, seria importante divulgar numa próxima edição da Évora Experimental, os seus videopoemas em animação, uma vez que faleceu novo, mas desenvolveu uma original obra de poesia electrónica.
Também um pouco mais novo, Manuel Portela apresenta obras de grande rigor conceptual, onde utiliza novas tecnologias para criar poemas, sendo exemplo o seu livro exposto ‘Nuvens passageiras’, cujos poemas foram construídos com uma aplicação que metamorfoseou textos diversos, com conteúdos que remetiam para fenómenos voláteis ou efémeros, num processo combinatório onde os estruturou em quatro partes. Na apresentação do livro, Portela referiu que pretende realizar uma instalação com os poemas que o compõem. No Vídeo Box, marcou presença com ‘Almost imperceptible delays and lags’ (2024), obra que percorre a história das tecnologias: no ecrã vai surgindo a escrita de um diálogo à máquina, depois e sem imagem, ouvimos apenas o seu som gravado, seguindo-se o diálogo em audiovisual, e por fim temos a presença de avatares com interferência da inteligência artificial, questionando-nos assim sobre o impacto das tecnologias na comunicação.
Na exposição podemos ainda ver os belíssimos cartazes de Jorge dos Reis, impressos em serigrafia para a Évora Experimental deste ano, expostos ao lado dos desenhos que os originaram, revelando assim um pouco do seu processo criativo. Por fim, recomendo a consulta do Arquivo Digital da Po.Ex, projeto da Universidade Fernando Pessoa do Porto, da responsabilidade de Rui Torres, uma vez que podem conhecer melhor as obras dos autores da exposição em https://po-ex.net/
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