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Retratos de Rua (1994)

No verão de 1994, participei num projecto de Eurico Lino do Vale intitulado “Retratos de Rua”, integrado na LIS’94- Lisboa Capital da Cultura Europeia. Para tal, pintei um cenário a partir de “O fado” de Malhoa, onde as pessoas podiam tornar-se os personagens do quadro. O Eurico registava-os em polaroides, com uma técnica fantástica em que a polaroides era impressa em papel, sendo o resultado final muito pictórico. As polaroides eram vendidas quem se fazia retratar, no momento em que eram tiradas e impressas. Estivemos a maior parte do tempo à porta do Centro Cultural de Belém, e os transeuntes reagiam bem ao desafio. Lembro-me que o cenário ficava guardado no CCB, íamos todos os dias para lá numa Vespa, descíamos a ladeira para a porta dos artistas de mota, depois carregávamos o cenário e o material e lá íamos para a porta de entrada. Eu trajava uma saia comprida estilo Severa e o Eurico estava sempre catita, com um colete e porte de fotógrafo de outra época. Foi uma das experiências mais divertidas que tive nestas coisas da criatividade.

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Da Natureza (2009)

A história da minha colaboração na antologia ‘Da Natureza’ foi inesquecível. A antologia foi organizada por Sara Monteiro em 2009 e editada pela Fundação de Odemira.  Conhecia a Sara das suas colaborações na Big Ode, também tínhamos publicado em antologias de Micro-ficção. Para ‘Da Natureza’ enviei-lhe um conto mais extenso que o habitual. Escrevi uma ficção sobre uma cantora lírica, que estabelecia um diálogo interior com a paisagem alentejana, ao rumar de carro em direcção ao sul. deste modo,  também era uma viagem na sua memória e terminava na infância. A Sara sabia que sou alentejana e pensou que era um relato autobiográfico. Por isso, lembrou-se que eu poderia dar boleia a partir de Lisboa ao Rui Costa, meu compagnon de route no blog Insónia do Henrique Manuel Bento Fialho e também da revista Big Ode. Quando havia lançamentos da revista no Gato Vadio, onde nos encontrávamos com vários autores do Porto, o Rui era o nosso cicerone na vida nocturna. Para o lançamento da antologia em Odemira, depois de informar a Sara que não tenho carta de condução, apanhamos boleia com a Risoleta C. Pinto Pedro. O ponto de encontro foi a António Arroio onde a Risoleta era professora de português. Fui aluna nesta escola de arte, não ia lá desde 1987, foi um local intenso de descobertas na juventude. Quando cheguei à porta, ao ver o grafitti AMO-TE, com o piloto automático puxei de um cigarro. Veio logo um funcionário dizer que era proibido fumar, respondi que estava ao ar livre, o segurança mandou-me sair da escola. Tive de fumar fora do portão da entrada, a recordar o mundo diferente onde vivi. Na minha juventude existia a alameda das ganzas no interior da António Arroio, um corredor na cave onde partilhava charros com a professora de desenho e não só. Depois apareceu o Rui Costa e fomos de carro guiados pela Risoleta em direção a Odemira. O Rui era excelente contador de histórias, relatou-me no caminho um namorico na adolescência com uma miúda de Évora: conheceram-se em férias no Algarve e quando o Pai dela os apanhou aos beijinhos, deu-lhe um estalo à sua frente dele, o que o deixou estupefacto. O Rui era um espírito livre e entendia bem a repressão da sociedade tacanha portuguesa. Tive sorte com a família que me calhou na rifa, isso nunca me aconteceu, mas conheço histórias violentas e horríveis da cidade branca das muralhas, nem me quero lembrar da adolescência que tive em Évora. Tenho imensas saudades do Rui, partiu cedo demais. Voltando ao encontro em Odemira, foi um óptimo convívio com os autores, lembro-me que me chamaram escritora e me deu uma enorme vontade de rir. O conto da antologia era escrita de pintora, funcionava como uma sequência de imagens. Lembro-me de explicar à Sara que era auto-ficcional, o que havia de auto-biográfico era o final: em criança, segundo relatos dos meus irmãos, acreditava que o eco era uma pessoa real que estava escondida a repetir o que dizia. O conto era uma história inventada a partir desta verdade, com base em histórias que conheço bem, não deixa de ser também mentira. Para pregar uma boa mentira ou escrever um conto, tem de haver verosimilhança (Diderot), um fundo de verdade na narrativa que se constrói. Vou estar sempre grata à Sara Monteiro ter-me desafiado a publicar nesta antologia por guardar na memória a vivência, a partilha com enorme carinho.

Podem ler o conto incluido nesta antologia aqui

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Big Ode #3 (Nov 2007-Fev 2008)

A ‘Big Ode #3’ (Nov 2007- Fev 2008), grande aventura do Rodrigo Miragaia, também com Sara Rocio foi dedicada à Fusão. Nas suas páginas publiquei prosas poéticas em diálogo com imagens. Recordo o lançamento em Almada, fui de boleia com amigos e andamos de noite a chover às voltas até encontrarmos o local. Foi um encontro entre artistas e poetas como todos os lançamentos da revista, onde também partilhamos os textos publicados oralmente: li o ‘Tango’ e não foi nada fácil, passei a treinar as leituras antes de qualquer apresentação em público. É mais difícil ler um texto que escrevemos em público, porque o conhecemos, do que um texto de outro autor. Podem ler o ‘Tango’ aqui.

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Ilustração de poema de Daniel Falb

***
 
uma natureza morta social com traço de vermeer,
                            o professor de piano dedilhava

uma menina de quinze anos especialmente doce, aos domingos
                     passeios de família nos arredores e ainda
a puberdade. mais tarde esta masturbação transforma-se em amor
                         e uma terna veneração por juliette
binoche, as estações passam desapercebidamente,
                                       o que é péssimo,
e às vezes o estudo «revolucionário» de frédéric chopin,
                      nova dedilhação, mas os mesmos erros.

 
Daniel Falb, ” Naturezas-mortas sociais: 33 poemas” (tradução de Pedro Sena-Lino e Tiago Rocha de Morais), p.37. A ilustração não foi publicada no livro.
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Weather Forecast

Acreditar na vida como
acreditamos no boletim
metereológico de todos os dias.
Apesar de todas as previsões,
fundamentadamente científicas,
há sempre uma variável que não
controlamos. E por isso temos
esperança e desconfiamos. E tal
como toda a gente, aprendemos
que há que saber sair de casa
esquecendo deliberadamente o
guarda-chuva.

Ricardo Marques, ‘Eudaimonia’ (2012). Lisboa: Edição de Autor.

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Caderno de desenho (2007)

Como já tinha referido anteriormente, na Big Ode #1 (Março 2007) o Rodrigo Miragaia publicou um texto a acompanhar imagens dos meus livros a preto e branco.  Deixo aqui o texto:

Caderno de desenho

Os cadernos de desenho são objetos. Contêm memória. Contêm tempo. Neles podem ficar registadas as nossas impressões e os nossos reflexos mais ou menos espontâneos. Podem ser o local ou o registo mais primário, depois da nossa própria mente, porque não tem que ter o caráter expositivo que têm outro tipo de atividades ou comportamentos (artísticos ou não) que nos trazem outro tipo de compromissos. Os cadernos de desenho correspondem ao momento em que transformamos as sensações em significados, ao momento em que traduzimos as ideias em símbolos ao momento em que fazemos opções. É nele que se escreve, desenha, pinta ou cola a nossa história. Uma identidade possível.

Diário de viagem, diário de bordo, caderno de esboços, livro de memórias. Se muitas vezes os cadernos de desenho servem apenas como meio para atingir um fim, noutras eles servem um fim em si. Existem palavras e imagens soltas que não têm outro lugar senão num caderno. Mas, pensando, sentindo e registando dedicadamente, existem autores que transformam os seus diários em obras plásticas, com forte sentido estético, coerência e carga emotiva. Obras plenas de histórias, sensações e génio.

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Pombos Lerdos (2018)

Em 2018 participei numa plaquette publicada na Medula organizada por manuel a. domingos, com uma micro-ficção sobre  a ‘Panorâmica’ que deu origem mais tarde à série de pinturas  realizadas durante a pandemia. Esta ‘Panorâmica’ só a terminei em 2020, quando mudei de casa. Por vezes acontece largar trabalhos criativos a meio e terminá-los mais tarde, quando a vida o permite. Deixo-vos aqui o texto ao lado da pintura, que coabita comigo: 

 

Concerto nº2

Já vos contei que pinto coisas que não sei o que são, mas acho que as consigo ver? Hoje estive de volta de uma panorâmica com a sede do banco central europeu em pano de fundo. A polícia de choque avança na paisagem e na vanguarda, um oficial fardado a rigor aponta a arma para um cachaço de bovino e três postas de salmão. Carne ou peixe, só fauna numa paisagem sem flora. Ao fim da tarde parei para ouvir o anjo Evgeny Kissin a tocar Rachmaninov. Voltei a olhar a panorâmica humana em construção e concertei-a pintando uma aura em torno da carne. Olhei de novo o polícia a disparar sobre o que já está morto, parece uma sombra. Está frio. Agora vou jantar sopa quente e rica em proteína vegetal.

'Panorâmica 2018-2020', colagem e óleo sobre tela, 30x80cm
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Panorâmicas 2020-2021

Conjunto de pinturas pandémicas em formato panorâmico na sequência da série ‘Naturezas-Mortas Sociais’ (2012-2014). Algumas estiveram expostas no Centro de Documentação da Câmara Municipal de Lisboa. A exposição foi organizada por Cláudia Domingues e decorreu entre 7 de Julho e 31 de Agosto de 2021. Foi ainda muito bem acompanha no catálogo pelo seguinte texto:

VANITAS EN ABYME

Se por panorama temos a ideia do dicionário de um “grande quadro circular ou cilíndrico disposto de modo que o espectador, colocado no centro, veja os objectos representados como se estivesse numa altura, dominando todo o horizonte em volta” os novos quadros de Maria João Lopes Fernandes (MJLF) acertam em cheio no seu título. Não serão cilíndricos estes quadros rectangulares, mas são circulares no sentido do que pretendem retratar: são panorâmicas de panoramas sociais imaginados pela pintora, onde os elementos justapostos são os do nosso quotidiano – como a comida e as flores o são na tradicional natureza-morta. 

Já sabemos que este é um tema caro à pintora, que o tem sabido pensar, expôr e desenvolver ao longo da última década, mostrando assim que o género está mais vivo que morto apesar da natureza do seu nome, e que permite contaminações contemporâneas, como a da colagem. Como se o óleo não desse já o tom e não fosse suficientemente impactante por si só, é frequente encontrar aqui e ali traços reais, retirados de jornais e de outros suportes em papel, de figurações e cenas vivas da nossa vida, dando uma textura por vezes palpável a estas telas, ao nosso tempo ali cristalizado. 

E mais do que a indiscutível virtuosidade da técnica, que a remete para o seu passado histórico-académico, o que acaba por ganhar primazia e se destaca claramente são os elementos escolhidos, o choque que a sua disposição quer, porque pode, provocar: e essa é uma forma inteligente de actualizar a ideia-conceito por parte de MJLF. Essa metamorfose política do carácter plástico da natureza-morta justifica-se desde logo quando lembramos que foi na literatura que este termo teve origem. Senão, vejamos: este sabão azul e branco, estes polícias e um ou outro fruto: que história pretende MJLF contar-nos que não a história dos nossos dias? Estes quadros podem ser vistos como pequenas narrativas do tempo recente (panorâmicas) cuja (anti-)chave está, porém, nos múltiplos caminhos da imaginação.

E chegado aqui pergunto-me se outra definição de panorâmica se poderia também aplicar: a do cinema. Lembremo-la: “Movimento ou plano cinematográfico em que a câmara se desloca rodando horizontalmente sobre um eixo fixo.” Não será este o movimento do próprio espectador quando se aproxima do quadro? Dito por outras palavras, que filmes fará cada pessoa que passar frente a estas telas? E se cinema é emoção, não despertarão estes quadros uma comoção, que é o passo imediatamente anterior à necessidade de agir (motio)? De resto, a ilusão de movimento (quase em trompe l’oeil) é, sem dúvida, um dos traços mais surpreendentes destes quadros.

Como esta exposição prova, então, a arte é realmente o domínio onde ainda tudo pode acontecer, neste tempo virtual de truculentas vanitas; onde o aparente oxímoro de um nome (natureza-morta social) não existe para excluir ninguém, querendo aliás mostrar como, pelo contrário, estamos todos incluídos e ligados ao nosso tempo pela arte nele criada: nas nossas histórias individuais e colectivas, nos nossos sacrifícios e crenças, na nossa luta diária por um mundo melhor.

Mostrando, no fundo, porque razão “The revolution will not be televised.” 

Ricardo Marques

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Apresentação de ‘À Tona do Vazio & Reprise’

 Foi no dia 2 de Junho de 2021, na livraria Tigre de Papel em Lisboa, com o Ricardo Marques apresentamos o livro de Miguel Serras Pereira. Estavamos ainda em desconfinamento pandémico, no tempo das máscaras, podem ouvir em posdcast aqui. Nesta sessão li o seguinte texto: 


Li «À Tona do Vazio & reprise» durante o último confinamento, e o poeta Miguel Serras Pereira, que conheci pessoalmente agora, desafiou-me a estar aqui por ter partilhado no Facebook uma pequena nota de leitura. A nota começava assim:


“Em boa hora foi publicada esta antologia que reúne poemas escritos entre 1969 e 2019, excepto três poemas anteriores, segundo indicação do autor na abertura. No entanto, a nota do autor e o prefácio de Emanuel Cameira só li no fim. Fui directa aos poemas, sem ligar à estrutura do volume, que inicia com um conjunto de inéditos, seguindo-se uma seleção de poemas dos seus anteriores livros. Mergulhei de cabeça nos poemas e deixei-me levar, marcando as páginas onde queria voltar, alguns partilhei-os, cada vez tinha mais páginas marcadas e depois andava para a frente e para trás. “

De facto, não tenho o hábito de ler os prefácios nos livros de poesia, tornam-se sempre posfácios, vou directa aos poemas e depois fico por lá ou não. Apercebi-me da estrutura do livro, que inicia no fim da ordem cronológica, e avança em direcção à poesia do passado do autor, quando já ia bastante adiantada na leitura. Também porque durante o confinamento falei no Messenger com o Ricardo Marques, que me enviou a sua recensão crítica ao livro, depois publicada na Colóquio Letras. Na altura disse ao Ricardo que não entendia as referências ao Renascimento descritas no texto, mas tinha sentido que o autor era antigo e moderno em simultâneo. Por exemplo, na página 148, o poema “Talvez um barco”, vi que tinha a estrutura de um soneto, mas reinventada livremente. Não tenho competências para analisar formalmente os poemas, para além de achar que é redutor, porque como diria a poeta e ensaísta Salette Tavares (uma das minhas autoras favoritas): “A obra de arte não é um pastel de massa tenra em que se possa separar o exterior aparente da carne que constitui um recheio” (in «Os efes». E.M. de Melo e Castro, José-Alberto Marques, “Antologia da poesia concreta em Portugal”, Assirio & Alvim, 1973, p.122). Um bom poema é sempre forma e conteúdo, é criação de um todo ou novo «Cosmos».


Existe uma característica na poesia que me seduz muito na leitura, é possível na experiência estética de um poema ver a superfície textual antes ainda de ler, podemos observar como se desenvolve a mancha do texto na página, que é variável ao contrário de uma monótona e linear prosa escrita.  Este aspecto relaciona-se também com a capacidade de síntese desta arte, uma vez que a sua forma estética permite condensar uma enorme quantidade de informação. Aquilo que num ensaio ou numa narrativa se desenvolve em páginas e páginas de forma extensa, num bom poema existe brevemente, num instante denso que foca e exige uma grande concentração por parte do leitor. Creio que é uma das qualidades desta arte maior e mágica das palavras que é a poesia, a síntese e a sua capacidade de condensar informação e surge com uma pequena escala, bem mais pequena que num ensaio ou numa prosa. Escala essa talvez mais humana, se é que se pode apelidar assim. Tenho mais empatia por um estudo de Chopin com a sua forma breve e intensa, do que com uma ópera de Wagner que são horas e horas de música com efeitos especiais para o público não adormecer a meio, com toda aquela complexidade mitológica para a eternidade. Confesso que as obras megalómanas me assustam. Apesar de não se poder comparar fenómenos tão díspares, onde é possível entender e ver as características e qualidades diferentes, sinto-me mais próxima de obras com escalas mais humanas, de que é exemplo este livro que reúne cinquenta anos de poesia de Miguel Serras Pereira.


Ainda em relação à leitura de poesia, gosto de pegar num livro, abri-lo ao calhas, ver e ler um poema e depois deixá-lo a ressoar interiormente, fico a disfrutar da leitura, e quando o poema fica ressoar, tenho vontade de o voltar a ler. E isso aconteceu neste livro que nos reúne aqui hoje. Em “À Tona do Vazio & reprise” encontrei-me com raros e belos poemas de amor que nunca descabam em sentimentalismos, pelo contrário, li poemas onde Eros e Thanatos viajam de mão dadas, canções de amor e morte onde senti a voz de um trovador muito antigo e moderno em simultâneo. Em todos estes poemas encontrei um trabalho de linguagem muito cuidado e rigoroso, onde lúdicos jogos fono-semânticos muitas vezes extravasam estruturas clássicas com uma moderna liberdade livre, numa lírica sempre elegante e temperada de intemporalidade. Talvez por isso andei às voltas enquanto viajei no livro, voltava atrás na leitura enquanto seguia em frente sem me cansar. E quando o terminei de ler sabia que sempre que me lembrar dalgum poema deste livro vou voltar a ler e a ler e a ler.

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Em cada encruzilhada

Em cada encruzilhada (2021). Colagem e aguarela sobre papel, 15x21cm.


Porque és a encruzilhada sempre a teu caminho
de todos os meus passos em cada encruzilhada

Miguel Serras Pereira