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Hamburg: Março 2024 #1

Este ano, no mês de Março estive em Hamburgo: marquei a viagem de forma a abalar de avião na madrugada a seguir às eleições legislativas, para não ficar deprimida. Desliguei aquele canal medonho e andei quilómetros a pé por outros canais a olhar o mundo. O objectivo era ver a exposição do Friedrich na Kunsthalle. Quando lá cheguei o funcionário da recepção informou-me que tinham vendido na Internet todos os bilhetes até ao fim da exposição. Disse-lhe que não sabia, quase chorei, e tinha apanhado o avião de Lisboa de propósito. E tinha visto as suas pinturas numa viagem que fiz a Berlim. Ele tinha os olhos de um azul límpido impressionante. Perguntei-lhe pelo catálogo, disse-me que só havia em alemão. Estávamos a falar em inglês, claro! Disse-lhe que ia comprar na mesma, respondeu-me que assim poderia aprender alemão para ler o catálogo. Respondi que já tinha tentado, mas é muito difícil. E gostaria de um dia ler Rilke em alemão (aí os anjos, os anjos, os anjos…) Já desolada, disse-lhe que me restava ver a arquitectura da cidade que é linda! Então pediu-me para me sentar no hall de entrada, esperar um pouco porque estavam a chegar excursões de velhotes de toda a Alemanha, habitualmente, alguém não podia vir nesses grupos, desistia por motivos de saúde. Se fosse o caso, eu podia visitar a exposição. Sentei-me à espera, um colega dele substituiu no balcão de entrada. Só via casais de velhotes a entrar em fila, são muito organizados e silenciosos. Passado um bocado, os olhos céu límpido vieram na minha direção, perguntou se tinha cartão de crédito, claro que sim. Já ao balcão vendeu-me um bilhete, fez questão de dizer que era o mesmo preço de todos os bilhetes, e dava para as quatro exposições da Kunsthalle. Aconselhou-me a ver as obras de artista contemporâneos no último andar inspirados no Friedrich. Fiquei comovida, agradeci-lhe o gesto. Existem anjos em Hamburgo.

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Fotogramas 1994-1996

Em 1994, durante a minha estadia em Halifax participei em duas exposições colectivas, ambas na galeria do Nova Scotia College of Art and Design. A primeira foi a convite de uma colega amiga, uma exposição de mulheres artistas. Foi uma experiência belíssima, expus um fotograma com um fragmento de uma carta de Rainer Maria Rilke a um jovem poeta, elogiando as mulheres enquanto seres humanos. O contacto com as feministas na escola de arte durante esta estadia no Canadá levou-me a uma maior reflexão sobre a condição feminina. A segunda foi com os colegas que frequentavam o Intermedia Studio orientado por Garry Neill Kennedy, onde mostrei um conjunto de fotogramas em sequência, formando assim uma narrativa visual no friso da sala. De volta a Portugal, em 1996 e já a frequentar o curso de escultura na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, alguns fotogramas foram expostos na sala na altura dedicada a Ernesto de Sousa no CAPC em Coimbra, integrados na exposição colectiva ‘Zapping Extazy’, organizada por Paulo Mendes.

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Fotogramas 1994

No ano de 1993, quando frequentei o Curso Avançado no Ar.Co produzindo sobretudo desenhos, também frequentei o curso fotografia, onde tive uma iniciação ao analógico a preto e branco. Da experiência, recordo bem o lado alquímico das imagens a surgirem no escuro quando eram reveladas, encantou-me sempre mais do que tirar fotografias. Experimentei também fazer pequenos fotogramas, utilizando desenhos em papel vegetal, textos e objectos. Entretanto surgiu a oportunidade de participar num   intercâmbio com o Nova Scotia College of Art and Design, em Halifax (Canadá), onde estive no semestre de outono de 1994. Foi uma oportunidade de expandir os fotogramas com outros meios tecnológicos, ampliando o formato e experimentando fazer a cores. A diferença é que a cores não existe luz de presença na câmara escura, ao contrário do analógico preto e branco. Deste modo, utilizava desenhos e textos em papel vegetal, assim como objectos, e colocava-os às escuras sobre o papel fotográfico, que ocupava o chão da câmara escura. Depois ligava o ampliador e só via o resultado da “composição” depois do papel fotográfico sair da máquina de revelação. O azul que utilizei surgiu por acaso após algumas experiências com outras cores, quando vi achei que era adequado e não o larguei mais. Ficou-me na memória como o azul Halifax.