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Pombos Lerdos (2018)

Em 2018 participei numa plaquette publicada na Medula organizada por manuel a. domingos, com uma micro-ficção sobre  a ‘Panorâmica’ que deu origem mais tarde à série de pinturas  realizadas durante a pandemia. Esta ‘Panorâmica’ só a terminei em 2020, quando mudei de casa. Por vezes acontece largar trabalhos criativos a meio e terminá-los mais tarde, quando a vida o permite. Deixo-vos aqui o texto ao lado da pintura, que coabita comigo: 

 

Concerto nº2

Já vos contei que pinto coisas que não sei o que são, mas acho que as consigo ver? Hoje estive de volta de uma panorâmica com a sede do banco central europeu em pano de fundo. A polícia de choque avança na paisagem e na vanguarda, um oficial fardado a rigor aponta a arma para um cachaço de bovino e três postas de salmão. Carne ou peixe, só fauna numa paisagem sem flora. Ao fim da tarde parei para ouvir o anjo Evgeny Kissin a tocar Rachmaninov. Voltei a olhar a panorâmica humana em construção e concertei-a pintando uma aura em torno da carne. Olhei de novo o polícia a disparar sobre o que já está morto, parece uma sombra. Está frio. Agora vou jantar sopa quente e rica em proteína vegetal.

'Panorâmica 2018-2020', colagem e óleo sobre tela, 30x80cm
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Uma casa no tempo 2006

 A primeira vez que publiquei textos foi numa colectânea de contos da Companhia do Eu, escola criada por Pedro Sena-Lino em 2005, onde também dei aulas de introdução à pintura e trabalhei no atendimento aos alunos. Tudo se passava em horários pós-laborais, tenho excelentes memórias deste espaço livre onde convivi com pessoas muito interessantes e encontrei bons amigos. Isto passou-se no período anterior ao meu doutoramento nas Belas-Artes de Lisboa. As prosas-poéticas da coletânea também estão presentes no Blog Insónia do Henrique Manuel Bento Fialho, onde colaborei entre 2005-2009. Tanto a amizade e a partilha no blog do Henrique, como a amizade do Pedro e a colaboração na sua escola foram importantes no desenvolvimento desta minha componente de resvalar para escrita, com uma presença intermitente no meu percurso, uma vez que as artes visuais são preponderantes. E como dizia Vinícius de Moraes: ‘A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida’. Tenho a sorte de encontrar pessoas bonitas e fazer bons amigos por onde vou passando, apesar de me sentir sempre estrangeira e em viagem por onde passo.