Em 2007 fui incluida na antologia ‘Contos de algibeira’, organizada por Laís Chaffe, Casa Verde, Porto Alegre (Brasil). No ano seguinte participei na ‘Primeira Antologia de Micro-ficção Portuguesa’ (2008) organizada por André Sebastião e Rui Costa, Exodus, Vila Nova de Gaia. Publiquei em ambas as antologias devido a colaborar no Blog Insónia do Henrique Manuel Bento Fialho, autor do prefácio da antologia portuguesa, e onde o poeta Rui Costa também era compagnon de route. Nos ‘Contos de Algibeira’ publiquei um texto em homenagem à gata Lua, com vista à sua internacionalização. Recordo o lançamento em Lisboa ser no Frágil, abriram o espaço de propósito num fim de tarde para o evento, não entrava lá desde os anos noventa. Na ‘Primeira Antologia de Micro-ficção Portuguesa’ foram publicadas algumas prosas diarísticas postadas no Blog do Henrique e não me recordo de ir a lançamento. O registo da micro-ficção estava bastante presente na blogosfera, no período em que os blogs andavam em alta, talvez por se adaptar ao próprio formato das páginas virtuais da altura.
Autor: MJLFernandes
Artista visual e investigadora.
Apontamentos #1
- Autor do artigo Por MJLFernandes
- Data do artigo 4 de Junho, 2024
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“Devemos fazer a distinção entre mistério e segredo. Há o mistério da morte, mas este mistério caracteriza-se pelo facto de não ser um segredo, como há o segredo da bomba atómica, o segredo da pedra filosofal, o segredo dos violinos Stradivarius, etc. Os homens são muito ligados a este género de segredo. Porém, ninguém tem o segredo da morte. Não há segredo. Não é um segredo e é nisso que a morte é um mistério. Ou seja, é um mistério em pleno dia, tal como o mistério da inocência. É um mistério que está na transparência, no próprio facto da existência. Diz-se, por exemplo, que o que há de mais misterioso não é a noite profunda, mas sim o pleno meio-dia, o momento em que todas as coisas são apresentadas na sua evidência, onde se desnuda o próprio facto da existência das coisas. O facto de estarem lá é mais misterioso que a noite, que desperta dos pensamentos de segredo. Um segredo descobre-se, mas um mistério revela-se e é impossível descobri-lo.”
Vladimir Jankélévitch, «O Irrevogável: conversa com Daniel Diné» (1967), “Pensar a Morte”, trad. de Joana Patrício Rosa (2003). Mem Martins: Editorial Inquérito.
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Caderno de desenho (2007)
- Autor do artigo Por MJLFernandes
- Data do artigo 3 de Junho, 2024
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Como já tinha referido anteriormente, na Big Ode #1 (Março 2007) o Rodrigo Miragaia publicou um texto a acompanhar imagens dos meus livros a preto e branco. Deixo aqui o texto:
Caderno de desenho
Os cadernos de desenho são objetos. Contêm memória. Contêm tempo. Neles podem ficar registadas as nossas impressões e os nossos reflexos mais ou menos espontâneos. Podem ser o local ou o registo mais primário, depois da nossa própria mente, porque não tem que ter o caráter expositivo que têm outro tipo de atividades ou comportamentos (artísticos ou não) que nos trazem outro tipo de compromissos. Os cadernos de desenho correspondem ao momento em que transformamos as sensações em significados, ao momento em que traduzimos as ideias em símbolos ao momento em que fazemos opções. É nele que se escreve, desenha, pinta ou cola a nossa história. Uma identidade possível.
Diário de viagem, diário de bordo, caderno de esboços, livro de memórias. Se muitas vezes os cadernos de desenho servem apenas como meio para atingir um fim, noutras eles servem um fim em si. Existem palavras e imagens soltas que não têm outro lugar senão num caderno. Mas, pensando, sentindo e registando dedicadamente, existem autores que transformam os seus diários em obras plásticas, com forte sentido estético, coerência e carga emotiva. Obras plenas de histórias, sensações e génio.
- Etiquetas Livro de artista, Outros Encontros, Revistas
The Last 69…Complete 1997-1999
- Autor do artigo Por MJLFernandes
- Data do artigo 2 de Junho, 2024
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Na Big Ode #1 (Março 2007) como já tinha aqui referido, colaborei com uma entrevista ao poeta experimental César Figueiredo e também publiquei um texto sobre as suas worm produtions, originais edições que seguem o espírito das interdisciplinares fluxkits, utilizando o potencial da copy-art, aliada também à apropriação de objectos na criação de múltiplos. No entanto, o meu texto foi escrito ainda no século passado, e a propósito de ‘The Last 69…Complete” (1997-1999), onde foi incluido um micro-livro com fragmentos dos meus textos visuais. Deixo-vos aqui o texto:
#69
Uma imagem pode ser a representação de formas no espaço, um fragmento da realidade. Pode também ser a apresentação de formas no espaço-tempo, uma articulação de fragmentos da realidade. Em todo o caso, é suspensão do tempo num espaço que o aprisiona, em paralelo ao tempo que está a decorrer.
Uma sequência de imagens materializa, de certa maneira, o tempo que decorre numa contínua suspensão do tempo em espaços sucessivos. Esta suspensão em movimento assemelha-se mais ao mistério sequencial que o tempo contém.
O livro é um dos objetos que melhor se aproxima deste mistério, mas de um modo pausado, num tempo que corre devagar. Ele pode conter palavras, imagens, palavras- imagens, grafismos, cores manchas, odores, texturas… que se podem ler, percepcionar, cheirar, sentir, percorrer e interiorizar num tempo próprio. O tempo de um livro pode ser tocado: os nossos dedos permitem a mudança de espaços no tempo que decorre, o movimento que ele nos revela. O folhear das páginas é o som de um objeto vivo.
Os livros da série 69 convidam-nos a tocar o tempo próprio de cada um deles contém. São objetos intimistas, quase cabem dentro de uma mão. Eles guardam a comunicação que César Figueiredo estabelece com outros autores, situada numa rede planetária de artistas e não-artistas conhecida por worm group. A esta rede ele propõe um jogo: que lhe enviem material para a edição destes livros. O material é apropriado e manipulado, posteriormente, usando as potencialidades da tecnologia eletrográfica. Este meio permite-lhe aproximar-se de imagens e textos através da fragmentação.
Os fragmentos são aspetos que estão abafados no contexto de um todo, que César Figueiredo descontextualiza e organiza sob a forma destes micro-livros. Cada página é um detalhe revalorizado, que nos surge num contexto sequencial, onde vários pormenores se interligam no folhear. O resultado do jogo são invólucros de carga energética de um sistema interativo, que o autor celebra com outro autor. Nos casos em que a fragmentação não tem um papel preponderante, o sistema de interação resulta mais de uma sintonia temática e/ou troca de ideias num processo de empatia. Em alguns casos, César Figueiredo aparece como autor ele próprio, numa reorganização do seu trajeto. Mesmo deste modo, ele é um autor por via de outrem, como em todos os livros, no sentido em que cada um é a reestruturação de um discurso. As worm prodution’s são assim um sistema interactivo.
As páginas destes livros funcionam como encaixes de vestígios de um enigma. São um pouco como o puzzle em que nos inserimos: encontram-se ou desencontram se peças num todo que está sempre incompleto.
César Figueiredo e AA.VV. ‘The Last 69…Complete” (1997-1999)’, caixa de cartão com 10,5 x 13 x 8 cm, alberga 69 micro-livros, cada um mede 10,5 x 7,5cm. Worm produtions, Porto.
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Pombos Lerdos (2018)
- Autor do artigo Por MJLFernandes
- Data do artigo 1 de Junho, 2024
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Em 2018 participei numa plaquette publicada na Medula organizada por manuel a. domingos, com uma micro-ficção sobre a ‘Panorâmica’ que deu origem mais tarde à série de pinturas realizadas durante a pandemia. Esta ‘Panorâmica’ só a terminei em 2020, quando mudei de casa. Por vezes acontece largar trabalhos criativos a meio e terminá-los mais tarde, quando a vida o permite. Deixo-vos aqui o texto ao lado da pintura, que coabita comigo:
Concerto nº2
Já vos contei que pinto coisas que não sei o que são, mas acho que as consigo ver? Hoje estive de volta de uma panorâmica com a sede do banco central europeu em pano de fundo. A polícia de choque avança na paisagem e na vanguarda, um oficial fardado a rigor aponta a arma para um cachaço de bovino e três postas de salmão. Carne ou peixe, só fauna numa paisagem sem flora. Ao fim da tarde parei para ouvir o anjo Evgeny Kissin a tocar Rachmaninov. Voltei a olhar a panorâmica humana em construção e concertei-a pintando uma aura em torno da carne. Olhei de novo o polícia a disparar sobre o que já está morto, parece uma sombra. Está frio. Agora vou jantar sopa quente e rica em proteína vegetal.
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